segunda-feira, 17 de março de 2025

O PODER DO TEU SORRISO

Repara só no poder do teu sorriso. Sim! Do teu!

Seja ele mais fechado ou rasgado, revele ele uma espécie de ladrilhos brancos impecavelmente perfilados ou denuncie aquela peça fora de sítio, naquele desalinho que o torna tão especial, esse teu sorriso é poderoso.
É que, quando sorris, todo o teu corpo vira ginásio e uma imensidão de músculos são contraídos. E quando uma gargalhada desponta, o teu cérebro vira pista de dança para neurotransmissores, e bolas de espelho em forma de dopamina acompanham o ritmo de um coração que bate (mesmo), ativando a circulação sanguínea, oxigenando cada bocadinho de ser, assegurando-te da vida que trazes em ti.
E já reparaste que, quando sorris, o teu rosto ganha vida, os olhos enchem-se de brilho, as maçãs do rosto emergem e o queixo ganha um destaque geometricamente enquadrado, numa harmonização facial instantânea e gratuita, daquelas, naturais, que não plastificam, de forma standardizada, a emoção?
E quando sorris, abrem-se as cortinas da tua alma e mostras a melhor versão daquilo que sabes ser, mesmo que, por vezes, a prefiras esconder; mesmo que, por vezes, essa versão insista em esconder-se até de ti; mesmo que, por vezes, te convenças de que ela já se evadiu daí de dentro, sem aviso prévio e sem deixar pistas que te levem no seu encalço. Mas, escuta: se até os foragidos de Vale de Judeus foram encontrados, essa tua versão não poderá fugir, assim, sem mais nem menos, por muito mais tempo…
O sorriso é uma espécie de código postal que encurta a distância entre pessoas, uma via rápida para a empatia, que derruba barreiras e, em jeito de bandeira branca, avisa o outro que não lhe és um perigo. E quando ris e sorris, contagias o mundo à tua volta, viras farol sem que te apercebas, tornas-te luz no fundo de um qualquer túnel, despontas um feixe luminoso por entre a fenda no peito enpedernido de alguém e podes virar GPS, certeiro e providente, mesmo sem necessidade de instruções robotizadas.
O teu sorriso pode não mudar o mundo, mas haverá, certamente, muitos mundos a precisar dele. A começar pelo teu. Por isso, mesmo que não te apeteça, mesmo nos dias em que sintas que uma espécie de corda atada a um bloco de betão te puxa para o lodo do fundo de um lago escuro, sorri. Porque um sorriso pode, simplesmente, ser a bóia que nos mantém à tona, na espuma dos dias, ou virar bote que nos leva a bom porto.
Rir e sorrir é o melhor dos remédios, não te esqueças! E não vem nem com contratos de letras pequenas, nem com bula de contra-indicações. Por isso, usa-o em doses generosas e várias vezes ao dia. Acredita: o teu sorriso é mesmo poderoso!

(Publicado no Diário de Leiria, 14 de Março de 2025)

sábado, 8 de março de 2025

falange, falanginha, falangeta

 Se a minha mão for pequena na

tua mão, pede-lhe, com jeitinho, 

que seja maior por um momento


e será asa aberta sobre o teu peito,

guardando-te da culpa e do temor.

Por um momento, a minha mão


pode ter o tamanho de outra mão,

o tamanho exacto da tua mão, o


tamanho do mundo, se lhe pedires.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Livros e Palavras

"Era uma vez um livro de histórias cheio de palavras como todos os livros. Estava guardado na prateleira de uma estante, num armário ao fundo do fundo de uma casa e há muito tempo que ninguém lhe pegava para o folhear e o ler. As palavras estavam para ali muito alinhadinhas mas fartas de estar fechadas nas páginas do livro, sem ninguém que as lesse e as dissesse em voz alta, e lhes permitisse espreguiçarem-se e darem uma voltinha para estender as pernas.
Não é de admirar que um dia, as letras que formavam a palavra "borboleta" tenham começado a tremelicar, a chocar umas com as outras e, de repente, a palavra borboleta tenha saído do livro a voar.
Atrás dela seguiu a palavra "foguetão" que não quis ficar para trás e, num instante, entrou em órbita.
Entusiasmada, a palavra "canguru" saltou de página em página até saltar também do livro para fora.
E muitas outras palavras seguiram este estranho exemplo.
A palavra "cavalo" lá se foi, naturalmente, a galope. A palavra "fervura" ferveu e desapareceu numa nuvem de vapor no ar.
A palavra "gelado" derreteu-se.
A palavra "sapato" disse que precisava de umas meias solas e pôs-se a andar.
Cada palavra lá foi andando da maneira que pôde. Mesmo palavras pesadas como "gordo", ou lentas como "caracol", com maior ou menor dificuldade, acabaram por escapar do livro.
E foi assim que, a pouco e pouco, as páginas foram ficando em branco e o livro vazio e sem histórias para contar.
No meio daquelas páginas todas, só tinha ficado a palavra "lápis" que se sentiu muito triste ao ver-se ali sozinha.
Por isso, pôs-se a inventar uma história e começou a escrevê-la cheia de palavras redondas, quadradas e bicudas, umas mais magrinhas, outras barrigudas. E escreveu palavras e palavras e palavras a rodo e, assim, acabou por encher de novo o livro todo."
José Fanha, A Noite em que a noite não chegou.

terça-feira, 23 de março de 2021

Se eu Fosse um Padre

 Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,

não falaria em Deus nem no Pecado
muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema ainda que de Deus se aparte
um belo poema sempre leva a Deus!

quinta-feira, 16 de julho de 2020

E assim

Confúcio observava a catarata do rio Liu-liang, em que as águas se despenham de uma altura de trinta varas e criam uma corrente turbulenta e com espuma que se estende por quatro léguas. Nessa corrente, nem tartarugas gigantes, nem crocodilos, nem peixes conseguiriam flutuar.
De repente, viu um homem já idoso que nadava nela. Tomou-o por alguém que estaria em sofrimento e queria morrer e disse aos seus discípulos que fossem a correr pela margem para o tentarem salvar. Mas, algumas centenas de passos mais abaixo, o homem saiu da água por si mesmo. Tinha os cabelos longos e soltos e cantava enquanto caminhava sobre a areia da margem. Confúcio foi atrás dele e disse-lhe:
- Pensei que era um fantasma, mas agora vejo que é um homem. Permita-me que lhe faça uma pergunta. Tem algum método especial para conseguir deslocar-se assim na água?
- Longe disso, respondeu o homem, não tenho nenhum método.
Começou no precedente, cresceu na minha natureza e ficou perfeito no destino.
Mergulho no que é inteiramente plano e saio acompanhando o que é confuso.
Sigo o modo de agir da água e não um que seja meu.
É esta a razão por que me consigo deslocar nela.
- O que quer dizer com «começou no precedente, cresceu na minha natureza e ficou perfeito no destino»? perguntou Confúcio.
- Nasci entre estas colinas e senti-me em paz entre elas. Foi o precedente.
Cresci na água e senti-me em paz nela. Era a minha natureza.
É assim e não sei a razão porque é assim. É o destino.

Chuang Tse, tradução e comentário de António Miguel Campos, Lisboa, Relógio d'água, 2017, pp. 100-101 (XIX,10)

Nota: O título foi atribuído por mim.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Sobre o Tempo...

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade. 


                                 Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 28 de maio de 2013

LIBERDADE

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.


Miguel Torga

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

"P.S. Eu te amo" (Um texto jornalístico que me emocionou)

RIO - Era uma noite de terça-feira insuspeita em Copacabana. No fim daquele dia, 23 de outubro, um grupo de frequentadores do sebo Baratos da Ribeiro faria exatamente o que faz há cinco anos: se espremeria entre as prateleiras abarrotadas da livraria para mais um encontro do Clube da Leitura, evento quinzenal em que leem trechos de livros e trocam impressões sobre contos próprios. Quando chegou a sua vez na roda, o dono do sebo e fundador do clube, Maurício Gouveia, tirou da gaveta um livro que guardava há dez anos escondido no acervo: um exemplar em italiano de “Nove contos”, do escritor americano J.D. Salinger.
Não tinha coragem de vendê-lo. Com as bordas amareladas e as páginas carcomidas, aquele “Nove racconti” guardava uma dedicatória em português na página de rosto que Maurício considerava mais bonita do que todo o livro do autor do clássico “O apanhador no campo de centeio”. Um homem comum — que poderia ser um médico, um vendedor de sapatos ou um trapezista de circo — declarava seu amor a uma mulher, em Milão, em 26 de dezembro de 1966. Maurício leu a dedicatória enorme, que começava com a frase “De tudo que vem de você, permanece em mim uma vontade de sorrir” e se encerrava com a oração “a vida é um contínuo chegar de esperanças”. Ao final, subiu o tom para ler o nome do santo: Sylvio Massa de Campos.
Foi quando um dos frequentadores do clube soltou um “opa!”. O jornalista George Patiño conhecia a família Massa, da qual Sylvio era o patriarca. Ele não vendia sapatos, trabalhava em circo ou morava em Milão: o matemático e escritor Sylvio Massa de Campos estava vivo, trabalhara a vida toda na Petrobras, tinha 74 anos e morava logo ali, no Leblon.
— Tem certeza? — perguntou Maurício.
— Trago ele aqui no próximo encontro — prometeu George.
Feito. No dia 6 de novembro, um senhor de cabelos brancos, sorriso fácil e porte altivo entrou no sebo acompanhado de duas filhas e três netos. Emocionado, recebeu das mãos de Maurício o livro perdido. Releu a dedicatória em voz alta, com pausas longas entre uma frase e outra, o que só aumentava o suspense na livraria, entrecortado pelo ruído dos netos inquietos. Depois de ser longamente aplaudido, contou aos novos colegas a história por trás daquela mensagem.
Em 1966, ele fazia mestrado em Matemática em Milão com uma bolsa do governo brasileiro. Lá, conheceu uma italianinha de nome Febea, que tinha concluído os estudos em Literatura em Londres, e acabava de retonar à Itália. Quando ela comentou que conhecia José Lins do Rego e João Cabral de Melo Neto, e que adoraria aprender português para ler Guimarães Rosa, Sylvio se apaixonou na hora: apesar de trabalhar com algoritmos, era na literatura que descansava seus teoremas. Prestes a terminar a pós-graduação, no entanto, logo voltaria ao Brasil. O amor foi construído à distância.
— Nosso namoro durou um ano, 136 cartas, nove livros, dois telegramas e um telefonema — contou Sylvio, para suspiro coletivo da plateia, e espanto das filhas, que não conheciam todos aqueles números. — Naquele tempo, dar um telefonema era uma fortuna. Esta dedicatória escrevi no dia do meu aniversário, já doido por ela. Eu nem sei como perdi o livro, acho que foi numa mudança nos anos 80.
Um ano depois, Febea veio morar no Brasil, e Sylvio montou um apartamento no Méier para ela. Tiveram duas filhas, Isabella e Gabriella — que a essa altura se debulhavam em lágrimas na livraria —, e viveram felizes para sempre. Até que um câncer levou Febea aos 41 anos de idade. Sylvio nunca mais se casou.
— A arte de viver é a arte de acreditar em milagres, disse o poeta italiano Cesare Pavese, e se hoje eu estou aqui é porque ele está certo. Febea foi a pessoa que eu amei mais profundamente em toda a minha vida. E ela está presente aqui, nessas cinco pessoas que fizemos, nossas duas filhas e três netos. Esse é o milagre — declarou Sylvio, lembrando, ao final, uma frase que ouvira do neto quando ele tinha 4 anos, e que levava como mantra de vida: “Vovô, nada é grave.”
Na rotina dos livreiros de sebos, dedicatórias anônimas aparecem com muita frequência. Mais até do que os exemplares usados de “O Xangô de Baker Street”, de Jô Soares, um campeão nacional em rotatividade. Os livros já chegam com cantadas, desculpas, felicitações, despedidas, malfazejos.
— O livro usado traz uma história que muitas vezes é mais interessante do que aquela que ele conta. Aqui na Baratos nós tínhamos uma caixinha para guardar os objetos encontrados dentro das páginas, como cheques, receitas médicas, ingressos de cinema, flores, contas, fotos... Daria uma exposição — comenta Maurício, que também guardou por algum tempo dois livros trocados entre amigos, com dedicatórias irônicas em que tentavam dissuadir o outro das suas convicções políticas (um era de direita; o outro, um anarquista convicto).
Mas acabou vendendo os exemplares. É da natureza da profissão: o livreiro não é um colecionador, mas um comerciante. (...)

Para ler tudo:
http://oglobo.globo.com/rio/ps-eu-te-amo-6826279


domingo, 9 de dezembro de 2012

MULHER

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher


José Carlos Ary dos Santos

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Os Professores

"O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.


O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva. O trabalho dos professores é a generosidade.

Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.

Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.

Recusar a educação é recusar o desenvolvimento.

Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança."

José Luís Peixoto, revista Visão de 13 de Outubro de 2011

Colhido em http://peroladecultura.blogspot.com/2011/10/os-professores-por-jose-luis-peixoto.html?spref=fb, no dia 16 de Outubro de 2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Com Fúria e Raiva

"Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe, muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra"


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Pranto pelo dia de hoje

"Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas"


Sophia de Mello Breyner (1919-2004)

A Princesa e a Ervilha

"Era uma vez um príncipe que queria casar com uma princesa, mas com uma verdadeira princesa. Deu a volta ao mundo na esperança de encontrar uma menina assim, mas em vão. Princesas encontrou ele muitas, mas era difícil ter a certeza de que eram verdadeiras princesas. Havia sempre alguma coisa nelas que lhe parecia suspeito. Por fim, regressou ao seu palácio muito triste, porque desejava muito casar com uma princesa verdadeira.

Uma noite, desabou uma tempestade terrível; trovejava, relampejava, e chovia a cântaros. De súbito, alguém bateu à porta do palácio e o velho rei, pai do príncipe, apressou-se a abrir.

Era uma princesa, mas, santo Deus, em que estado a chuva e a tempestade a haviam posto! A água escorria-lhe dos cabelos e das roupas, entrava-lhe pela biqueira dos sapatos e voltava a sair pelos tacões. Todavia, afirmou ser uma verdadeira princesa.

«Isso é o que iremos descobrir», pensou a velha rainha. Sem dizer nada, entrou no quarto de dormir, tirou os lençóis e os colchões e colocou no fundo da cama uma ervilha. Em seguida, pegou em vinte colchões, estendeu-os sobre a ervilha, e sobre eles empilhou ainda vinte cobertas.

Era a cama destinada à princesa.

No dia seguinte, perguntou-lhe como passara ela a noite.

- Muito mal, na verdade! – respondeu. - Mal consegui fechar os olhos toda a noite! Sabe Deus o que tinha a cama; era qualquer coisa dura que me pôs a pele toda roxa. Foi horrível!

Ouvindo esta resposta, reconheceram que se tratava de uma verdadeira princesa, porque sentira uma ervilha através dos vinte colchões e das vinte cobertas. Que mulher, a não ser uma princesa, poderia ter uma pele de tal modo delicada?

O príncipe, convencido que ela era uma verdadeira princesa, tomou-a como esposa. A ervilha foi posta no museu, onde deve encontrar-se ainda, a não ser que alguém a tenha roubado.

E aqui está uma história verdadeira."

Hans Christian Andersen

domingo, 1 de maio de 2011

O Menino de Sua Mãe

"No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe"


Fernando Pessoa

domingo, 24 de abril de 2011

Crónica dos Dias - Domingo de Páscoa

"Nasci a um domingo de Páscoa. O meu 11º aniversário também coincidiu com essa data, depois... nunca mais.
Isto sempre me fez confusão: deveria haver uma lógica, uma regularidade na “data móvel” da Páscoa...Para mim isto era ainda mais estranho por ter aprendido que se celebrava a morte e ressureição de Jesus Cristo e todas as mortes que conheço têm uma data fixa!...Outra coisa que me intrigava era o facto de se falar de Páscoa judaica, quando eu tinha aprendido que os judeus não aceitaram Cristo como o filho de Deus...Será que a Páscoa não era uma data só cristã?
Foram então estas as questões que resolvi pesquisar nesta Crónica de Abril, aproveitando a oportunidade que estas crónicas me dão de perseguir e esclarecer as minhas dúvidas sobre os dias assinalados nos calendários.
Então cá vai o resultado da pesquisa:
Parece que sempre se celebrou a Páscoa, ou pelo menos perdeu-se no tempo o início das celebrações (pagãs) ligadas ao equinócio da Primavera e a uma deusa da fertilidade cultuada pelos povos germânicos, Eostre ou Ishtar, nome que parece ter dado origem à designação de Páscoa nas línguas germânicas: “Easter”.
Já a designação latina de Páscoa parece ter origem directa na festa judaica “Pesach” (ou a Páscoa judaica).Esta festa, uma das mais importantes do calendário judeu, comemora a libertação do povo de Israel da escravidão a que estava sujeito no Egipto. Segundo a tradição judaica foi nesta altura que Deus libertou o povo de Israel, que, liderado por Moisés, protagonizou o “êxodo” através do deserto. A forma erudita de perceber esta tradição é lendo o livro do Êxodo do Antigo Testamento bíblico, a forma mais “light” será vendo o filme que a Disney fez há alguns anos intitulado “O Príncipe do Egipto”.
Nos primeiros tempos desta festa judaica (que ainda hoje se celebra) faziam-se sacrifícios de cordeiros no templo de Jerusalém.
Para alguns estudiosos do Cristianismo a morte de Cristo aconteceu, de forma propositada, na Páscoa (Pesach) pois Jesus Cristo é considerado o “Cordeiro de Deus” imolado para a salvação do pecado, cujo sangue significaria uma nova aliança entre o divino e os homens. A ressurreição de Cristo ocorrida a um domingo justifica o abandono do sábado judeu como dia de descanço.
Até aqui já consegui perceber a existência da Páscoa Cristã, da Páscoa Judaica e da ligação entre elas, mas, porque é que a data não é sempre a mesma?
O dia de Páscoa é o primeiro domingo depois da lua cheia que marca o equinócio da Primavera. Tudo isto foi assumido e organizado pela Igreja Católica no Concílio de Niceia, em 325 (d.C., obviamente).Mas, para fazer uma tabela definitiva, a Igreja serviu-se não da verdadeira lua, mas de uma lua imaginária, conhecida por “lua eclesiástica”(!).
A quarta-feira de cinzas ocorre 46 dias antes da Páscoa, dando início ao período religioso da Quaresma. A Páscoa foi definida como uma data móvel, sempre entre as datas de 22 de Março e 24 de Abril. Com a fixação do (nosso) calendário gregoriano, em 1582, a sequência das datas da Páscoa foi fixada num ciclo de, aproximadamente, 5.700.000 anos.
Segundo as tabelas que encontrei não voltarei a fazer anos num domingo de Páscoa, mas já consegui deslindar (um pouco) toda esta amálgama de datas e simbolismos misturados.
Então, sintetizando, na Páscoa assinala-se simultaneamente, conforme os credos:
1- a chegada da Primavera, celebrada como tempo de renovação, de reflorescimento, de acasalamento, de fertilidade, cuja símbologia ainda permanece no coelho e nos ovos de Páscoa. Aqui fiquei muito mais tranquila por poder afastar a ideia de uma ligação anti-natura entre uma galinha e um coelho de que resultariam os ovos coloridos; afinal, parece ser uma tradição pagã, popularizada por imigrantes alemães na América que escondiam ovos em tocas de coelhos, que deveriam ser procurados na manhã do domingo de Páscoa, (enfim, são as tradições da pátria de George W. Bush!).
2- O Pessach: conjunto de rituais da religião judaica que assinalam a passagem da escravatura para a liberdade do povo de Israel (hebreus ou judeus).
3- A morte e ressureição de Jesus Cristo, que, por insondáveis desígnios da Igreja Católica, se “fixou” como uma “data móvel”.
E pronto, aqui fica o resultado de mais uma pesquisa sobre os dias, que me deu a oportunidade de esclarecer um pouco as dúvidas (que há anos arrasto) sobre um dia de Abril, que foi também o do meu nascimento."
L.C.

quarta-feira, 2 de março de 2011

POEMA DA AUTO-ESTRADA

"Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta
Vai na brasa de lambreta.

Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volu'pia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio nao e' com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pelo cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que enterra.
Tudo foge 'a sua volta,
o ceu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demonio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
sao ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa de lambreta."

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Poema de Natal

"Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrela a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente."


Vinícius de Moraes

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ser Professor

"Ser professor é ser artista
malabarista,
pintor, escultor, doutor,
musicólogo, psicólogo...

É ser mãe, pai, irmã, avó,
é ser palhaço, bagaço...
É ser ciência e paciência...
É ser informação.

É ser acção,é ser bússola, é ser farol.
É ser luz, é ser sol.
Incompreendido?... Muito.
Defendido? Nunca.

O seu filho passou?...
Claro, é um génio.
Não passou?
O professor não ensinou.

Ser professor
é um vício ou vocação?
É outra coisa...
É ter nas mãos o mundo de amanhã.

Amanhã.
Os alunos vão-se...
E ele, o mestre, de mãos vazias,
fica com o coração partido.

Recebe nova turmas,
novos olhinhos ávidos de cultura
e ele, o professor, vai despejando
com toda a ternura, o saber, a orientação
nas cabecinhas novas que amanhã
luzirão no firmamento da pátria.

Fica a saudade
A amizade.
O pagamento real?
Só na eternidade."


Autor anónimo, professor da UNL, (segundo o site da Direcção Regional da Educação dos Açores). Recebida em comentário de blogue.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Aos poetas

"Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão."


Miguel Torga

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Marião

"Adeus oh Vale de Gouvinhas, Marião
Não és vila nem cidade, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião

És um povo pequenino, Marião
Feito à minha vontade, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião

Hei-de cercar Vale Gouvinhas, Marião
Com trinta metros de fita, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião

À porta do meu amor, Marião
Hei-de pôr a mais bonita, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião

Os meus olhos não são olhos, Marião
Sem estarem os teus de fronte, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião

Parecem dois rios de água, Marião
Quando vão de monte em monte, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião

Já corri os mares em volta, Marião
Com uma vela branca acesa, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião

Em todo o mar achei água, Marião
Só em ti pouca firmeza, Marião
Sim, sim Marião
Não,Não Marião"

(Letra e música popular interpretada por Brigada Victor Jara)